Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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Este não é um blogue acadêmico, nem jornalístico, não é um blogue temático e não é politicamente correto (modismo idiota americano)! Este blogue pretende ser um espaço de idéias sem a formalidade acadêmica, livre, de conteúdo variado, sem nenhum compromisso temático, ideológico, partidário, étnico, religioso, essas bobagens todas. Ou seja, é politicamente pentelho! e cheio de contradições! como eu! Quem espera respostas prontas e uma enxurrada de racionalidade, que vá ler Kant!
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10 de fev de 2012

Romper paradigmas !

Paralítico 1Jesus foi (é) especialista em romper paradigmas. Por exemplo, em Marcos 1.40-45, ele toca em um leproso e o cura. Todo mundo dá muita importância à cura, mas o fato mais importante do texto é que Jesus tocou o leproso! Segundo a Lei de Moisés, isso fazia de Jesus um impuro, tanto quanto o leproso. Mesmo assim, Jesus desobedece a norma, rompe o paradigma sobre impureza e coloca o homem, antes excluído, apto para viver em sociedade.
Eu gosto muito de ler, estudar e refletir o Evangelho segundo São João. Acho que é um dos livros mais fortes da Bíblia, e muito mal compreendido pela Igreja… chegou a ser suspeito de heresia gnóstica antes de ser aceito pela Igreja Antiga! Não é para menos! João apresenta um Jesus que rompe paradigmas o tempo todo, algumas vezes de forma cínica, encarando de frente os “donos da verdade”, escribas, fariseus, saduceus, autoridades religiosas e outros “especialistas em Deus” naquele tempo.
Uma das minhas perícopes preferidas é João 5.1-18, com o péssimo e errado título de “cura de um paralítico” dado pelos antigos editores da Bíblia em língua portuguesa:
Depois disso, houve uma festa dos judeus, e Jesus foi até Jerusalém. Ali existe um tanque que tem cinco entradas e que fica perto do Portão das Ovelhas. Em hebraico esse tanque se chama “Betezata”. Perto das entradas estavam deitados muitos doentes: cegos, aleijados e paralíticos. [Esperavam o movimento da água, porque de vez em quando um anjo do Senhor descia e agitava a água. O primeiro doente que entrava no tanque depois disso sarava de qualquer doença.] Entre eles havia um homem que era doente fazia trinta e oito anos. Jesus viu o homem deitado e, sabendo que fazia todo esse tempo que ele era doente, perguntou: — Você quer ficar curado? Ele respondeu: — Senhor, eu não tenho ninguém para me pôr no tanque quando a água se mexe. Cada vez que eu tento entrar, outro doente entra antes de mim. Então Jesus disse: — Levante-se, pegue a sua cama e ande! No mesmo instante, o homem ficou curado, pegou a cama e começou a andar. Isso aconteceu no sábado. Por isso os líderes judeus disseram a ele: — Hoje é sábado, e a nossa Lei não permite que você carregue a sua cama neste dia. Ele respondeu: — O homem que me curou me disse: “Pegue a sua cama e ande.” Eles perguntaram: — Quem é o homem que mandou você fazer isso? Mas ele não sabia quem tinha sido, pois Jesus havia ido embora por causa da multidão que estava ali. Mais tarde Jesus encontrou o homem no pátio do Templo e disse a ele: — Escute! Você agora está curado. Não peque mais, para que não aconteça com você uma coisa ainda pior. O homem saiu dali e foi dizer aos líderes judeus que quem o havia curado tinha sido Jesus. Então eles começaram a perseguir Jesus porque ele havia feito essa cura no sábado. Então Jesus disse a eles: — O meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho. E, porque ele disse isso, os líderes judeus ficaram ainda com mais vontade de matá-lo. Pois, além de não obedecer à lei do sábado, ele afirmava que Deus era o seu próprio Pai, fazendo-se assim igual a Deus. (João 5.1-18 – Nova Tradução na Linguagem de Hoje / Sociedade Bíblica do Brasil)
Vejamos algumas coisas no texto: diz ai que o sujeito está DOENTE há 38 anos. Não diz que ele é paralítico. Uma parte do texto é uma glosa (está entre colchetes, significando que não há unanimidade nos manuscritos gregos originais sobre o trecho). Mas essa glosa explica que há uma crença popular antiga sobre o tanque em Betesda (a NTLH chama de “Betezata” – purismo dos biblistas?): um anjo vinha agitar as águas e o primeiro que entrasse no tanque era curado. Que coisa mais maluca, você não acha? e profundamente injusta! Esse negócio de Deus fazer uns milagrezinhos para alguns e deixar uma multidão se lascando o tempo todo é algo muito pouco coerente com o Deus amoroso que Jesus revelou! Os que se locupletam com os lucros dos milagres vão dizer sempre que não acontece o milagre se o sujeito não tiver Fé (como se Deus necessitasse de algo dependente do ser humano, como ter Fé – que aliás, é dom de Deus! Então Deus seria um safado! não dá o dom da Fé e por isso não faz o milagre! um gozador cruel!). Paralítico 2
Então está lá o sujeito, enfermo e paralisado por uma crendice… totalmente dependente e escravo de um costume religioso sem sentido algum! Jesus chega até ele e, com uma tremenda cara de pau, simplesmente manda o sujeito ir embora para ser curado!!!! Ele não ora, não impõe as mãos, não passa cuspe no sujeito, não molha com água milagrosa! Jesus faz absolutamente nada! apenas manda o sujeito pegar suas coisas e dar o fora! A coisa é tão surpreendente que o sujeito vai embora e nem mesmo sabe quem é aquele que o libertou!
Isso causa um tremendo furor entre as autoridades e os ambulantes que, com certeza, estavam por ali explorando aqueles infelizes… como em qualquer santuário milagreiro, sempre tem o pessoal do comércio de coisas sagradas e vendedores de empadinha, coxinha e pastel… Ora bolas! um sujeito “doente” simplesmente se levanta e vai embora, sai curado sem passar pelo ritual do banho!!! que risco para os negócios!!! Claro, eles têm de arrumar uma forma de atacar quem teve tal ideia! e como sempre, buscam uma razão moralista para acusar quem rompeu com o costume: invocam a lei do sábado! e fazem o maior tré-lé-lé com isso.
O sujeito “curado”, por sua vez, fiel às leis religiosas, vai para o templo, com certeza para se apresentar ao sacerdote e dar sua generosa oferta pela cura, em ação de graças! E lá acaba se encontrando de novo com Jesus, que lhe dá uma bronca: — Escute! Você agora está curado. Não peque mais, para que não aconteça com você uma coisa ainda pior. Ou seja! o que você está fazendo aqui??? insistindo em manter o costume sem sentido???
Mas então as autoridades descobrem que Jesus foi o responsável por aquele desatino que ameaçava o próspero negócio milagreiro de Betesda. E começa o ataque moralista sobre o sábado…
Essa é uma característica da primeira parte do Evangelho de João, do capítulo 2 até o 12: a permanente querela das autoridades religiosas com Jesus em relação aos costumes e regrinhas da religião, os bons costumes que fazem tudo funcionar bem… os paradigmas, que não são a Tradição, mas a forma de interpretar a Tradição.
(Perdoem-me os especialistas em exegese e hermenêutica; não sou desse time, mas como sou Protestante, pratico o livre exame das Escrituras e como uma parte da Igreja de Cristo me ordenou Presbítero, sou autorizado a não só examinar, mas também interpretar e ensinar. Assim, não estou preocupado se minha interpretação é academicamente perfeita, mas eu a considero pastoralmente muito boa! – nada modesto, né?)
Como Israel no tempo de Jesus, a Igreja é herdeira de uma Tradição muito antiga. Nesses 2000 anos de história, a Igreja foi interpretando e reinterpretando a Tradição, para responder ao tempo do presente. Mas muitas coisas acabaram grudando na Tradição, se tornaram paradigmas, certezas absolutas, e se confundiram com a Tradição, a cristalizaram, a emparedaram. O que era resultado da reflexão à luz da Fé, em determinado momento, acabou se tornando um valor perene, não questionável, engessando a reflexão e a percepção da Palavra de Deus em tempos posteriores.
Eu creio firmemente que a Palavra de Deus fala às pessoas de cada geração, de cada tempo e apresenta o Caminho de Deus para esse tempo. Temos hoje na Igreja costumes, normas, padrões, que são discrepantes e nada dizem para o homem contemporâneo. Muito do que falamos sobre doutrina, missão, evangelização, liturgia, devoção, é meramente paradigma, algo que em certo momento foi útil, mas já não é mais. Nossa própria visão de Igreja – a eclesiologia – está engessada na institucionalização brutal que acabou tomando conta de nossa maneira de funcionar: nossas formas de governo, nossos cânones, as centenas de órgãos burocráticos e “comissões de coisa alguma” que são criadas para qualquer decisão a ser tomada… O eclesial da Igreja acabou sendo minimizado pela enormidade eclesiástica!
As pessoas hoje entendem a Igreja (e as Igrejas) como instituição! E vivemos um tempo em que as Instituições perderam a confiabilidade. Quase não se percebe mais a “Ecclesia Tou Theou”, a Comunidade de Deus (literalmente “Assembleia de Deus”!!!).
Aquilo que deveria ser a infra-estrutura para a Missão (Martiria), para o Serviço (Diaconia), para a Comunhão (Koinonia) acabou se tornando superestrutura centrada em si mesma, que cuida apenas do próprio umbigo.
Não seria hora da gente ter a coragem de reavaliar tudo e quebrar os paradigmas que nos amarram e nos fazem perder um tempo enorme de nossas vidas inutilmente? recuperar a Tradição, polir aquilo que verdadeiramente é nossa herança, recebida de nossos ancestrais, e tornar a Igreja uma COMUNIDADE DE FÉ  realmente relevante e atuante no testemunho do Evangelho???
Precisamos de mais estudo e menos burocracia! precisamos de mais oração consequente que rezação para cumprir preceito! estudar a Tradição, separar joio do trigo e, então, pegar nossa cama e sair caminhando, libertados dos paradigmas que nos paralisam. (“Quem sabe a gente cria uma comissão para estudar o assunto?” ARGH! vou vomitar!)
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5 comentários:

  1. Muito boa provocação meu irmão. Haja inspiração. Que Deus continue te iluminando, ou seja, te avivando a intuição!

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  2. Obrigado Caetano, bom começo de uma reflexção. Agora acho interessante avanzar para identificarmos os mecanismos eclesiais que nos deixam fixos e paralisados... Ariel+

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    1. Bem, Ariel, no caso da IEAB acho que em alguns lugares a reflexão começou a caminhar, pelo menos em nível de lideranças locais e diocesanas... Eu entendo que a reflexão está começando pelo lado certo, não em uma Comissão, mas nas conversas... Todavia, romper paradigmas não é fácil e sempre dá uma certa insegurança: sair do seguro conhecido para o horizonte aberto desconhecido. Mas não é assim que sopra o Espírito???
      " Sai da tua terra e vai para o lugar que vou te mostrar!" Isso começou com Abraão!

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  3. Parabéns pelo texto, Caetano. Excelente!!!

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  4. Traduzi esse texto, e aquele que vc postou no O Apóstolo sobre tema semelhante e enviei para reflexão nas Casas da Ordem. Aqui no Canadá, a reflexão interna apresentou indagações e intuições sobre o futuro. Obrigado pela mensagem, maninho! Você tem se superado!

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